Quando a vivacidade recebe um rótulo – Reflexões de uma mãe
- irialacarta1
- 7 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Às vezes pergunto-me quando foi que começámos a ver a nossa vivacidade como algo “demasiado”.

Ultimamente, ouço cada vez mais a palavra PHDA – seja no recreio da escola, em conversas com outros pais ou até da boca das próprias crianças.
“Talvez eu tenha PHDA, hoje não consigo concentrar-me.”
“O meu filho não consegue estar quieto, deve ter PHDA.”
Frases assim surgem com frequência no meu dia a dia.
Não sou médica. Nem psicóloga. Trabalho em Recursos Humanos – e sou mãe. E como muitas outras pessoas, observo com atenção o que está a mudar: nos comportamentos das crianças, mas também na forma como falamos sobre isso.
Entre diagnóstico e identidade
A PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção) é um fenómeno real. Para quem é afetado, seja criança, jovem ou adulto, pode trazer muitos desafios. E em muitos casos, o apoio profissional é fundamental e valioso. Disso não tenho dúvidas.
Mas o que me salta à vista é outra coisa:
O facto de começarmos a associar características humanas normais, como a vontade de se mexer, a curiosidade, o pensamento criativo ou a impulsividade, a uma perturbação.
E então pergunto-me:
Quando é que a vivacidade se tornou um sintoma?
E se não for uma perturbação, mas sim um dom?
Conheço muitas pessoas (crianças e adultos) que estão cheias de energia. Brilham quando falam de algo que adoram, movem-se com entusiasmo, têm mil ideias a fervilhar ao mesmo tempo.
É verdade que nem sempre se encaixam nos modelos tradicionais. São intensas, apaixonadas, por vezes caóticas. Mas será que isso é um problema? Ou será que são exatamente como devem ser?
Eu própria, em tempos, pensei que devia controlar melhor a minha criatividade, esconder a minha energia, organizar as minhas ideias. Hoje sei: isto sou eu. E foi precisamente por ser assim que escrevi um livro, exponho arte ou faço rir as pessoas.
Um apelo para mais espaço no que é ser humano
E se voltássemos a ser um pouco mais corajosos em aceitar o que é diferente? E se deixássemos de ver cada comportamento fora do padrão como uma “falha”? E se, em vez de julgar, olhássemos com curiosidade e perguntássemos: “Será que esta pessoa simplesmente vê o mundo de outra forma? E será que isso não é uma riqueza?”
Não estou a dizer que se deve ignorar o sofrimento verdadeiro. Muito pelo contrário. Quem sofre, merece apoio. Sempre. Mas talvez seja hora de pararmos de distribuir rótulos tão rapidamente.
Talvez devêssemos dar mais espaço à diversidade de ser humano – nas crianças. E também em nós próprios.
Iria Lacarta



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